parto de palavras

rosane coelho

Diário
02/11/2008 21h52
“TUDO O QUE CHEGA, CHEGA SEMPRE POR ALGUMA RAZÃO.”

(Fernando Pessoa)



As respostas às nossas questões moram dentro de nós mesmos. Cada um de nós é o oráculo de seus motivos. 
Quanto aos acontecimentos fortuitos, ou os justificamos ou, simplesmente, os aceitamos. Em qualquer das hipóteses, sempre é possível encontrar uma fagulha de luz que nos aqueça o corpo e ilumine o coração.
Pecado é uma questão de juízo...
Depende da sua vocação para ser feliz!


A citação de Fernando Pessoa, recebi de Nédier TVF. 
Pra ela o comentário.
Com um carinho do tamanho de um bonde, ou com um bonde cheio de carinho!


Publicado por Rosane Coelho em 02/11/2008 às 21h52
 
26/07/2008 23h20
RETRATO DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

RETRATO DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE 
Vinicius de Moraes


Duas da manhã: abro uma gaveta
Com um gesto sem finalidade
E dou com o retrato do poeta
Carlos Drummond de Andrade.
Seus olhos nem por um segundo
Piscam; o poeta me encara
E eu vejo pela sua cara
Que ele devia estar sofrendo
Dentro daquela gaveta há muito.
Tiro-o, depois com mão amiga
Limpo-o da poeira que lhe embaça
Os óculos e suja-lhe a camisa
E o poeta como que acha graça.
Procuro um lugar para instalá-lo
Na minha pequena sala fria
Essa sala tão sem poesia
Onde me reencontro todo dia
E onde me sento e onde me calo.


Poema inédito de Vinicius, descoberto pelo poeta e professor Eucanaã Ferraz, que será publicado em novembro no livro "Poesia Esparsa", título provisório de um dos 15 lançamentos ligados ao poeta carioca, que a editora Companhia das Letras coloca no mercado até 2011.
Segundo Ruy Castro, Vinicius considerava Drummond o "único poeta brasileiro de caráter universal".
Drrummond referia-se a Vinicius como o "único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural. Eu queria ter sido Vinicius de Moraes".
Únicos. Singulares. Indispensáveis à construção da poética brasileira.



Publicado por Rosane Coelho em 26/07/2008 às 23h20
 
22/02/2008 19h29
SOCORRO
(Alice Ruiz e Arnaldo Antunes)

Socorro, não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir
Socorro, alguma alma mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor nem dor
Já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor, uma emoção pequena, qualquer coisa
Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
Socorro, alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento, acostamento, encruzilhada
Socorro, eu já não sinto nada

* enviado pela parceira nédier *
* foto: adoração da floresta - victor melo *


O sentido da vida é a busca. O encontro que preenche transborda-nos em vazio. Nosso hábito é a fome. A saciedade nos é estranhamente assustadora.

Publicado por Rosane Coelho em 22/02/2008 às 19h29
 
12/10/2007 11h22
MENINO DE RUA: O SOL

* José Alberto Costa *


Passava do meio-dia. Um corpo inerte permaneceu a noite inteira ali. A posição fetal fazia-o nascer todos os dias de sua vida. Os transeuntes quase esbarravam nele. Cinzento, pés pretos, olhos vermelhos, papo amarelo, multicor. A expressão era de um menino; o sonho, de adolescente; o humor de um adulto; a vida, sabe-se lá o quê.

Aos poucos acordava daquele pesadelo para outra vida de horror. Sentou-se e reparou a movimentação de carros e pessoas que passavam ao largo. Pôs a mão dentro do calção tamanho grande, que o deixava perdido na sua magreza e retirou o café da manhã, que fora o jantar e o almoço do dia anterior – cola. Enquanto cheirava, afagava os cabelos castanhos sujos, limpava as remelas da noite sombria e tornava a afagá-los.

Tomado o café, cruzou a rua larga, despreocupado com o vai e vem dos carros. Braços bem abertos, pernas em compassos diferente do resto do corpo, arrastava-se para o outro lado da cidade, o descampado da cidade. Ainda segurava no beiço a garrafa de cola. Parecia um magro ianomâmi pós-moderno, com sua boca esticada e pedaço de graveto enfiado no lábio inferior. Um verdadeiro curumim perdido na floresta de pedra e asfalto.

Parecia saber pra onde ir. Parecia procurar um deus. Mas que deus queria achá-lo. Passou a noite dando bobeira debaixo da velha marquise e ele não o encontrou. Mas parecia procurar um deus. Olhava para o lado, pros pés, pras mãos, pros outros, por entre os prédios, e nada, nadinha de nada. E continuava sua busca. Por certo não saberia explicar esse deus, essa fonte de inspiração para seu delírio de início de tarde. Mais a frente tentava equilibrar a garrafinha de cola na cabeça. Agora parecia uma indiazinha que havia chegado na aldeia depois de apanhar água no igarapé.

Continuava caminhando, olhando a tudo e a todos. Não falava, não balbuciava nada. Parecia tomar decisões certas, seguir os caminhos mais certos, os horizontes mais firmes. Transformara-se num grande cacique, sábio na chefia de si mesmo. Atento aos momentos de perigo, um guerreiro concreto, pronto para o infortúnio, pronto e senhor de si. E assim percorria cada ponto da cidade numa mutação veloz. Parecia crescer, e mais veloz. Parecia esticar, e cada vez mais veloz. Ficava branco de medo, azul de fome, vermelho de raiva e as mutações continuavam cada vez e mais veloz.

Olhando todo o percurso desenhado nas diversas ruas por onde passou, aquela pobre criança havia assimilado a vida dele e de todos os outros que passaram por ele em cada estágio de sua mutação. Seus índios, de diversas aldeias e de diversas raças, desaceleravam próximo ao ponto final. Tinha uma mutação a mais. Mais velha, mais sábia e curandeira. Nosso pequeno rebento havia se transformado em pajé e percorrera toda a cidade para abraçar o deus que descobriu nunca lhe abandonara – o sol. E como em ritual de pajelança abraçou-o amavelmente, elevou as mãos aos céus se cobrindo d'ouro dos raios do sol e tornou a dormir, feliz ao relento. 




José Alberto Costa é  professor e escritor pernambucano, autor de textos belíssimos e pungentes - como este - sobre os "seus" meninos de rua de Recife. (comentário da Nédier que publicou o texto acima em seu blog -  http://meunomeenedier.blogspot.com/ - no dia 02/10/2007.

 
Em homenagem a esses meninos e ao texto acima, postei o poema
 "MENINO DE RUA: O SÓ" (no Dia das Crianças, uma reflexão). O endereço é: http://www.rosanecoelho.prosaeverso.net/visualizar.php?idt=691223


Publicado por Rosane Coelho em 12/10/2007 às 11h22
 
10/05/2007 00h03
OMELETE DE AMORAS
(Walter Benjamin)


Era uma vez um rei que chamava de seus todo poder e todos os tesouros da Terra, mas apesar disso não se sentia feliz, e a cada ano se tornava mais melancólico. Então, um dia, mandou chamar seu cozinheiro predileto e lhe disse:
"Por muito tempo tens trabalhado para mim com fidelidade e me tens servido à mesa as mais esplêndidas iguarias, de modo que te sou agradecido. Porém, desejo agora uma última prova do teu talento. Deves me fazer uma omelete de amoras igual àquela que saboreei há 50 anos, em minha mais tenra infância. Naquela época meu pai travava guerra contra seu perverso inimigo a oriente. Este acabou vencendo, e tivemos de fugir. E fugimos, pois, noite e dia, meu pai e eu, através de uma floresta escura, onde afinal acabamos nos perdendo. Nela vagamos e estávamos quase a morrer de fome e fadiga, quando, por fim, topamos com uma choupana. Aí morava uma velhinha que amigavelmente nos convidou a descansar, tendo ela própria, porém, ido se ocupar do fogão. Não muito tempo depois estava à nossa frente a omelete de amoras! Mal tinha levado à boca o primeiro bocado, senti-me maravilhosamente consolado, e uma nova esperança entrou em meu coração. Naqueles dias eu era muito criança e por muito tempo não tornei a pensar no benefício daquela comida deliciosa. Já era rei quando mais tarde mandei procurá-la. Vasculhei todo o reino. Não se achou nem a velha nem qualquer outra pessoa que soubessse preparar a omelete de amoras. Agora quero que atendas este meu último desejo: faze-me aquela mesma omelete de amoras! Se o cumprires, farei de ti meu genro e herdeiro de meu reino. Mas, se não me contentares, deverás morrer."

Então o cozinheiro disse:

"Majestade, podeis chamar logo o carrasco. Conheço, é verdade, o segredo da omelete de amoras e todos os seus ingredientes, desde o trivial agrião até o nobre tomilho. Sei empregar todos os condimentos. Sem dúvida, há também o verso mágico que se deve recitar ao bater os ovos, e sei que o batedor de madeira de buxo deve ser sempre girado num só sentido. Contudo, ó rei, terei de morrer! Minha omelete não vos agradará ao paladar. Jamais será igual àquela que vos veio pelas mãos da velhinha. Pois como haveria eu de temperar a coisa com aquilo tudo que nela desfrutastes e que vos deixou, senhor, a impressão inesquecível? Faltará o perigo da batalha e o seu picante sabor, a proximidade do pai na floresta desorientadora, a emoção e a vigilância do fugitivo perdido. Não será omelete comida com o sentido alerta do perseguido. Não terá o descanso no abrigo estranho e o calor do fogo amigo, a doçura da inesperada hospitalidade de uma velha. Não terá o sabor do presente incomum e do futuro incerto."

Assim falou o cozinheiro. O rei, porém, calou-se um momento e não muito depois consta haver dispensado dos serviços reais o cozinheiro, rico e carregado de presentes.



O desejo do objeto está fundado em "memórias inconscientes". O objeto é a representação dessas memórias. Não importa em si. Transcende a realidade. Sua essência é o significado. Objeto de desejo que jamais se materializará em objeto de consumo.

Publicado por Rosane Coelho em 10/05/2007 às 00h03



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Página atualizada em 02.12.08 11:51